Estado registrou 949 novas agências entre janeiro e agosto de 2026; avanço dos negócios reacende discussão sobre o papel do profissional em um mercado cada vez mais digital e competitivo
Durante anos, uma das previsões mais repetidas no mercado de turismo foi a de que a tecnologia diminuiria progressivamente o espaço das agências de viagens. Plataformas de reservas, companhias aéreas vendendo diretamente ao consumidor, aplicativos, inteligência artificial e acesso praticamente ilimitado à informação pareciam apontar para um cenário em que o viajante faria tudo sozinho.
Os números mais recentes de São Paulo mostram, no entanto, que a transformação do setor está seguindo um caminho mais complexo.
Entre janeiro e agosto de 2026, 949 novas agências de viagens foram registradas no Estado de São Paulo, segundo levantamento da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico. No mesmo período de 2025 haviam sido registradas 865.
As agências representam a maior parcela das 1.237 novas empresas relacionadas ao turismo abertas no Estado durante os primeiros oito meses deste ano. O levantamento contabiliza também 127 operadores turísticos e 161 empresas classificadas em serviços de reservas e outras atividades de turismo.
No conjunto, o número de novos negócios do setor aumentou 10% em relação ao mesmo período de 2025, quando haviam sido registradas 1.124 empresas.
Mais do que um dado comemorativo relacionado ao Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, os números levantam uma questão importante para o trade turístico brasileiro:
se o consumidor dispõe hoje de mais tecnologia para organizar uma viagem sozinho, por que continuam surgindo novas agências de viagens?
A tecnologia não eliminou as agências. Ela mudou o trabalho do agente
O crescimento no número de empresas não significa que o modelo tradicional de agência permaneça igual ao de décadas atrás.
O mercado mudou.
Pesquisar hotéis, comparar tarifas aéreas, comprar ingressos ou reservar determinados serviços deixou de ser uma atividade restrita aos profissionais de turismo. O viajante pode acessar fornecedores de praticamente qualquer lugar do mundo pelo celular.
Essa mudança reduziu a importância da agência baseada exclusivamente no acesso à informação.
Ao mesmo tempo, abriu espaço para outro tipo de atuação profissional.
Em um ambiente com milhares de hotéis, tarifas, companhias aéreas, regras tarifárias, fornecedores, atrações, seguros, experiências, aplicativos e canais de venda, o problema do consumidor muitas vezes deixou de ser encontrar informação e passou a ser selecionar, interpretar e organizar informação confiável.
É nesse espaço que parte das novas agências tenta construir seus negócios.
O agente contemporâneo pode atuar como consultor especializado em destinos, viagens corporativas, luxo, intercâmbio, grupos, cruzeiros, parques temáticos, eventos, viagens de incentivo, experiências personalizadas ou outros segmentos específicos.
A própria tecnologia que parecia ameaçar o intermediário também passou a permitir que profissionais montem operações enxutas, atendam clientes remotamente e comercializem produtos sem necessariamente manter uma estrutura física tradicional.
Abrir uma agência, porém, é apenas o começo
O número de novas empresas revela empreendedorismo e interesse pelo mercado de turismo, mas não responde a outra pergunta igualmente relevante:
quantas dessas empresas conseguirão permanecer no mercado?
Registrar um CNPJ e começar uma operação representa apenas a primeira etapa.
Em um setor fragmentado e competitivo, novas agências disputam consumidores não apenas com outras agências, mas também com companhias aéreas, hotéis, plataformas globais de reservas, operadoras, OTAs e sistemas de venda direta.
Para uma empresa que entra agora no mercado, simplesmente oferecer passagem aérea, hotel e pacote dificilmente constitui, sozinho, um diferencial.
A construção de um negócio sustentável passa por elementos como posicionamento, especialização, relacionamento com clientes, domínio de produto, gestão, tecnologia, marketing, reputação e capacidade de gerar recorrência.
O novo desafio é construir autoridade
Em um mercado no qual boa parte dos produtos pode ser encontrada online, a autoridade do agente tende a ganhar importância.
Conhecer profundamente um destino, acompanhar alterações de produtos, entender regras comerciais, manter relacionamento com fornecedores e conseguir transformar diferentes serviços em uma viagem coerente são ativos difíceis de resumir em uma comparação automática de preços.
Essa lógica também explica o crescimento de profissionais especializados em nichos.
Um agente pode construir autoridade vendendo viagens para a Disney e os parques de Orlando, enquanto outro pode concentrar sua atuação em cruzeiros, viagens corporativas, Europa, intercâmbio, viagens de luxo ou grupos.
Quanto maior o grau de especialização, maior pode ser a capacidade de produzir conteúdo relevante, gerar indicações e construir uma comunidade em torno da marca.
O desafio deixa de ser simplesmente dizer “vendo viagens” e passa a responder uma pergunta mais específica:
por que o cliente deveria comprar esta viagem com esta agência?
Carteira de clientes continua sendo um dos principais ativos
Outro desafio para os novos negócios está na aquisição de clientes.
Redes sociais reduziram as barreiras para que pequenas empresas ganhem visibilidade. Ao mesmo tempo, aumentaram radicalmente a quantidade de marcas disputando atenção.
Ter seguidores não significa necessariamente ter clientes.
A sustentabilidade de uma agência depende da capacidade de transformar audiência e contatos em relacionamento comercial, vendas e recompra.
Isso envolve acompanhar o cliente depois da primeira viagem, registrar preferências, trabalhar indicações, desenvolver comunicação recorrente e construir uma base própria.
Para uma agência, uma carteira ativa de clientes pode ser mais relevante no longo prazo do que depender permanentemente da busca por novos consumidores em plataformas digitais.
Marketing digital deixou de ser opcional
O crescimento das pequenas estruturas empresariais também trouxe para o agente uma responsabilidade que antes muitas vezes ficava concentrada em departamentos comerciais ou de marketing.
Além de vender viagens, o profissional precisa construir presença digital.
Site, mecanismos de busca, Google, Instagram, WhatsApp, vídeos, produção de conteúdo e gestão de relacionamento passaram a fazer parte da estratégia comercial de muitas agências.
Mas estar presente em todos os canais não significa necessariamente ter uma estratégia.
Conteúdo genérico sobre destinos compete com milhares de publicações semelhantes. Para gerar autoridade, a informação precisa demonstrar conhecimento que ajude o consumidor a tomar decisões.
Um agente especializado em Orlando, por exemplo, pode abordar planejamento dos parques de Orlando, viagem para Disney, Universal Orlando Resort, hotéis, ingressos, períodos de maior movimento, transporte e novos produtos do destino.
Uma agência especializada em cruzeiros pode construir conteúdo sobre navios, cabines, temporadas, portos de embarque, documentação e diferenças entre companhias.
Nesse cenário, conteúdo passa a funcionar não apenas como divulgação, mas como demonstração pública de conhecimento.
Capacitação se torna parte permanente da profissão
Quanto mais produtos chegam ao mercado, maior é a necessidade de atualização.
Companhias aéreas mudam rotas e políticas comerciais. Redes hoteleiras inauguram propriedades. Companhias de cruzeiros lançam navios. Destinos criam novos produtos. Parques temáticos ampliam atrações. Sistemas de reservas incorporam novas tecnologias.
O agente que trabalha com vários mercados precisa acompanhar um volume crescente de informações.
Por isso, treinamentos oferecidos por destinos, operadoras, companhias aéreas, redes hoteleiras, consolidadoras e demais fornecedores continuam ocupando espaço relevante no trade turístico.
Feiras, roadshows, famtours, webinars e visitas técnicas também funcionam como instrumentos de atualização e relacionamento comercial.
O conhecimento adquirido, porém, precisa chegar ao consumidor na forma de uma recomendação melhor.
Mais empresas também significam mais concorrência dentro do trade
As 949 novas agências registradas em São Paulo não representam apenas expansão.
Representam também 949 novos negócios entrando em um mercado que já possui milhares de empresas em operação.
Para fornecedores do turismo, esse movimento amplia a base potencial de distribuidores.
Para as próprias agências, aumenta a concorrência.
A disputa ocorre por clientes, mas também por atenção nas redes sociais, espaço em determinados nichos, relacionamento com fornecedores e acesso a oportunidades comerciais.
É nesse ambiente que diferenciação passa a ser uma questão empresarial, e não apenas de comunicação.
Microcrédito para turismo também avançou em São Paulo
Outro indicador acompanha a expansão empresarial.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Banco do Povo Paulista desembolsou R$ 482,3 mil em microcrédito para empresas ligadas ao turismo, crescimento de 90,2% sobre os R$ 253,6 mil registrados no mesmo período de 2025.
Foram realizadas 27 operações neste ano, diante de 15 no período equivalente do ano anterior.
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, os recursos podem ser utilizados para capital de giro, aquisição de equipamentos, insumos ou ampliação das estruturas empresariais.
O Banco do Povo trabalha com linhas entre R$ 200 e R$ 21 mil, prazo de pagamento de até 36 meses e carência de até 90 dias. As taxas partem de 0,35% ao mês.
Turismo brasileiro mantém forte volume de visitantes internacionais
A abertura de novos negócios ocorre também em um momento de grande movimentação do turismo brasileiro.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil recebeu 6.451.257 turistas internacionais, segundo dados da Embratur, Ministério do Turismo e Polícia Federal.
São Paulo concentrou 1.888.032 chegadas internacionais no período, o maior volume entre os Estados brasileiros.
O fluxo de viajantes aumenta o tamanho do mercado potencial não apenas para hospedagem, aviação e atrações, mas para toda a cadeia de distribuição e serviços turísticos.
O agente de viagens está desaparecendo?
Os dados de São Paulo não permitem afirmar quantas das novas agências permanecerão abertas nos próximos anos nem qual será o faturamento dessas empresas.
Também não significam que a transformação digital deixou de provocar mudanças profundas no setor.
Mas oferecem uma informação objetiva para o debate: em vez de desaparecer, novos negócios continuam sendo criados no segmento de agenciamento de viagens.
A questão passa, portanto, a ser menos sobre a existência do intermediário e mais sobre qual será sua função.
Em um mercado no qual o consumidor consegue reservar praticamente tudo sozinho, o valor profissional precisa ser construído em outras frentes: conhecimento, especialização, curadoria, serviço, relacionamento, segurança e capacidade de resolver problemas.
Para as 949 novas agências que entraram no mercado paulista apenas nos primeiros oito meses de 2026, esse provavelmente será um dos principais testes dos próximos anos.