Proposta ainda está em discussão e poderá atingir participantes do programa Optional Practical Training, utilizado por estrangeiros com visto F-1 para obter experiência profissional no país
O governo do presidente Donald Trump avalia cobrar uma taxa de US$ 100 mil de estudantes internacionais que desejem permanecer nos Estados Unidos para trabalhar após a conclusão de cursos universitários. A medida ainda não foi formalmente anunciada nem entrou em vigor, segundo informações publicadas nesta quinta-feira, 30 de julho, pela Bloomberg.
A proposta estaria relacionada ao Optional Practical Training, conhecido pela sigla OPT, programa que permite a estudantes com visto F-1 trabalhar temporariamente nos Estados Unidos em atividades ligadas à sua área de formação. Uma fonte ouvida pela Bloomberg afirmou que o plano está sendo discutido internamente pelo governo, sob condição de anonimato. A Casa Branca declarou que não existe mudança iminente, mas não negou que a cobrança esteja sendo considerada.
Ainda não está definido quem seria responsável pelo pagamento — o estudante, a universidade ou a empresa contratante — nem qual mecanismo legal seria utilizado para instituir a taxa. Também não há, até o momento, publicação oficial do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos ou da Casa Branca detalhando a proposta.
Como funciona atualmente o OPT
O Optional Practical Training é uma autorização temporária de trabalho concedida a estudantes estrangeiros matriculados em instituições certificadas pelo Student and Exchange Visitor Program.
O programa pode ser utilizado durante ou depois dos estudos. Após a graduação, estudantes elegíveis podem trabalhar por até 12 meses em uma ocupação diretamente relacionada ao curso realizado nos Estados Unidos. Graduados em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, conhecidas pela sigla STEM, podem solicitar uma extensão adicional de 24 meses, totalizando até três anos de autorização.
Para participar do OPT, o estudante precisa receber a recomendação da instituição de ensino e solicitar ao Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos uma autorização de emprego por meio do formulário I-765. O benefício não equivale à residência permanente nem garante a concessão posterior de outro visto de trabalho.
O programa também funciona como uma etapa de transição para graduados que posteriormente tentam obter vistos profissionais, como o H-1B, destinado a ocupações especializadas.
Proposta poderá afetar universidades e empresas
Uma cobrança de US$ 100 mil tornaria o acesso ao OPT inviável para grande parte dos estudantes internacionais. O valor poderá ainda alterar as estratégias de recrutamento de universidades norte-americanas, especialmente instituições que dependem das mensalidades pagas por estrangeiros.
No ano acadêmico de 2024/2025, universidades e faculdades dos Estados Unidos receberam 1.177.766 estudantes internacionais, crescimento de 5% em relação ao período anterior, segundo o relatório Open Doors 2025, produzido pelo Institute of International Education.
Apesar do aumento no total de matrículas, o levantamento preliminar referente ao segundo semestre de 2025 apontou queda de 17% no número de novos estudantes internacionais. A retração ocorreu em um ambiente marcado por alterações nas políticas migratórias, dificuldades na emissão de vistos e maior incerteza regulatória.
Os estudantes estrangeiros contribuíram com aproximadamente US$ 42,9 bilhões para a economia dos Estados Unidos no ano acadêmico de 2024/2025 e ajudaram a sustentar mais de 355 mil empregos, de acordo com a NAFSA: Association of International Educators.
O possível aumento de custos também preocupa empresas de tecnologia, engenharia, finanças, saúde e outras áreas que utilizam o OPT para contratar recém-formados com qualificações especializadas.
Cobrança segue política de restrição à imigração profissional
A discussão ocorre em meio ao endurecimento das políticas de imigração legal e profissional promovido pelo governo Trump.
Em setembro de 2025, a Casa Branca anunciou uma exigência de pagamento de US$ 100 mil para determinadas novas petições de visto H-1B. A medida foi apresentada pelo governo como uma forma de combater supostos abusos do programa e proteger trabalhadores norte-americanos.
A eventual cobrança sobre participantes do OPT seguiria lógica semelhante, mas teria impacto direto sobre estudantes que já investiram em cursos de graduação, pós-graduação, mestrado ou doutorado nos Estados Unidos.
Críticos da proposta argumentam que a medida poderá afastar talentos internacionais, reduzir matrículas, diminuir receitas universitárias e levar graduados qualificados a buscar oportunidades em países como Canadá, Reino Unido e Austrália. Defensores de restrições ao programa sustentam que o OPT poderá ser utilizado por empresas para contratar estrangeiros por custos inferiores aos praticados para trabalhadores norte-americanos.
Nenhuma mudança está em vigor
Até 31 de julho de 2026, a taxa de US$ 100 mil permanecia apenas como uma proposta em avaliação. Estudantes estrangeiros continuam sujeitos às regras atuais do visto F-1 e do Optional Practical Training.
Qualquer alteração deverá ser formalizada pelo governo norte-americano por meio de proclamação presidencial, regulamentação, publicação oficial ou mudança nos procedimentos do Departamento de Segurança Interna e do Serviço de Cidadania e Imigração.
Universidades, estudantes, agências de intercâmbio, consultorias educacionais e empresas que atuam com turismo educacional deverão acompanhar eventuais comunicados oficiais antes de considerar a cobrança como confirmada.