Petróleo acima de US$ 90 pressiona companhias aéreas e aumenta risco de reajuste nas passagens

Petroleo acima de US 90 pressiona companhias aereas e aumenta risco de reajuste nas passagens - Jornal Wish Travel | editorial B2B, direcionado ao trade turístico
Petróleo acima de US$ 90 pressiona companhias aéreas e aumenta risco de reajuste nas passagens

A nova escalada do conflito no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado aéreo mundial. O petróleo Brent, referência internacional para os preços de energia, ultrapassou US$ 90 por barril no início da semana, diante do aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã e dos temores de interrupção no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz.

A alta afetou imediatamente as ações de companhias aéreas europeias e ampliou as preocupações sobre o custo do combustível de aviação. Ryanair, Wizz Air, Lufthansa, Air France-KLM e o grupo IAG, controlador da British Airways e da Iberia, estiveram entre as empresas pressionadas nos mercados financeiros. 

O cenário continuou se deteriorando ao longo da semana. Na quinta-feira, o Brent chegou a superar US$ 100 por barril, impulsionado também por ataques contra navios no Mar Vermelho e pelo risco de comprometimento de duas rotas estratégicas para o comércio mundial de energia: o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab el-Mandeb. Nesta sexta-feira, a cotação recuou para perto de US$ 99, mas ainda acumulava forte valorização semanal. 

Por que o preço do petróleo afeta as passagens aéreas?

O combustível está entre as maiores despesas operacionais de uma companhia aérea. Quando o petróleo sobe, o preço do querosene de aviação tende a acompanhar esse movimento, ainda que nem sempre de maneira imediata.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo, a IATA, calcula que o combustível poderá representar 31,4% dos custos operacionais das companhias aéreas em 2026, acima dos 25,4% registrados em 2025. A entidade atribui esse avanço diretamente ao aumento do preço do querosene de aviação. 

A IATA trabalha com uma projeção média de US$ 152 por barril para o combustível de aviação em 2026, cerca de 69% acima da média de 2025. Caso essa estimativa se confirme, a conta anual de combustível do setor poderá aumentar em aproximadamente US$ 100 bilhões. 

Diante dessa pressão, as empresas costumam adotar uma combinação de medidas:

* reajustar tarifas;

* reduzir promoções;

* rever frequências;

* retirar rotas menos rentáveis;

* cobrar sobretaxas de combustível;

* buscar aviões mais eficientes;

* ampliar operações de proteção financeira contra a alta do petróleo.

O repasse ao passageiro depende da duração da crise, da concorrência em cada rota e do nível de proteção contratado por cada companhia.

Petróleo já ultrapassou US$ 100 durante a semana

A referência inicial de petróleo acima de US$ 90 corresponde ao movimento observado na segunda-feira, quando o Brent chegou a aproximadamente US$ 90,97 por barril.

A cotação, porém, avançou novamente nos dias seguintes e superou US$ 100 na quinta-feira. O salto foi provocado por ataques contra petroleiros sauditas e pelo temor de que o conflito comprometa uma parcela maior do fornecimento mundial. 

Nesta sexta-feira, o Brent era negociado perto de US$ 98,87 por barril, mesmo depois de uma realização de lucros. O valor ainda representava uma alta semanal próxima de 12%. O petróleo norte-americano WTI estava na faixa de US$ 90,59. 

Isso significa que a pressão deixou de ser apenas pontual. Quanto mais tempo o petróleo permanecer próximo ou acima de US$ 100, maior será a possibilidade de efeitos sobre os custos das empresas, o planejamento da malha aérea e os preços pagos pelos passageiros.

Estreito de Ormuz volta ao centro das preocupações

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. Localizado entre o Irã e Omã, o corredor conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.

Uma parcela relevante das exportações globais de petróleo e gás natural liquefeito passa diariamente pela região. Por isso, qualquer ameaça de bloqueio, redução do tráfego ou ataque contra embarcações pode provocar uma reação imediata nos preços.

Nas últimas semanas, o conflito entre Estados Unidos e Irã, os ataques contra navios e a redução do fluxo de petroleiros aumentaram o chamado prêmio de risco geopolítico.

O mercado também acompanha a situação no Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Interrupções simultâneas nesses dois corredores poderiam obrigar embarcações a adotar rotas mais longas e caras, elevando custos de energia, transporte e seguros. 

Ações de Ryanair e Wizz Air caíram

As companhias aéreas estiveram entre as empresas mais afetadas nos mercados europeus.

Na segunda-feira, as ações da Ryanair recuaram aproximadamente 7,2%, enquanto a Wizz Air caiu cerca de 3%. A reação refletiu tanto a alta do petróleo quanto a divulgação de resultados abaixo das expectativas pela Ryanair. 

Outras empresas, como Lufthansa, Air France-KLM, IAG e easyJet, também foram pressionadas.

As ações das companhias aéreas normalmente reagem de forma negativa à alta do petróleo porque investidores antecipam uma redução das margens de lucro. O setor trabalha com custos elevados, forte concorrência e pouca flexibilidade para repassar aumentos rapidamente em todos os mercados.

Lucro da Ryanair caiu 34%

A Ryanair informou que seu lucro líquido caiu 34% no trimestre encerrado em junho de 2026, para €538 milhões. O resultado ficou abaixo da previsão média dos analistas, que apontava €579 milhões.

A companhia atribuiu o desempenho ao aumento dos custos com combustível, à fragilidade das tarifas e à incerteza dos consumidores provocada pelo conflito com o Irã. 

Mesmo durante a alta temporada de verão europeu, a empresa encontrou dificuldades para elevar os preços das passagens na intensidade necessária para compensar os custos.

A situação mostra um dos principais dilemas enfrentados pelo setor: as companhias precisam aumentar as tarifas para proteger as margens, mas reajustes excessivos podem reduzir a procura.

Proteção contra o preço do combustível reduz parte do impacto

Grandes companhias aéreas costumam contratar operações financeiras conhecidas como hedge de combustível. Na prática, a empresa fixa antecipadamente o preço de parte de suas necessidades futuras.

A Ryanair afirmou que possui cerca de 80% do combustível necessário até março de 2027 protegido a US$ 67 por barril. A empresa também aproveitou uma trégua temporária para proteger 15% de suas necessidades do ano seguinte a aproximadamente US$ 85. 

Essa estratégia reduz a exposição imediata à alta do mercado. Entretanto, a parcela não protegida continua sujeita às oscilações.

No trimestre entre abril e junho, o custo da parcela de combustível não protegida da Ryanair chegou a aproximadamente US$ 150 por barril. 

Nem todas as companhias possuem o mesmo nível de proteção. Empresas com menos combustível contratado antecipadamente tendem a sentir o aumento com maior rapidez.

Segundo análise da Morningstar, a Wizz Air apresentava uma proteção menor do que a Ryanair e, portanto, uma exposição mais elevada à oscilação do mercado. Lufthansa e Air France-KLM também apareciam entre os grupos mais vulneráveis. 

IATA reduziu previsão de lucro do setor

A crise do petróleo já provocou uma revisão importante nas perspectivas da aviação mundial.

A IATA reduziu sua projeção de lucro líquido das companhias aéreas em 2026 para aproximadamente US$ 23 bilhões. A estimativa anterior era de US$ 41 bilhões, enquanto o setor havia registrado cerca de US$ 45 bilhões em 2025. 

A redução mostra que a alta do petróleo não afeta apenas a precificação das passagens. Ela também compromete investimentos, abertura de rotas, renovação de frota e capacidade de absorver imprevistos.

Companhias com endividamento elevado, margens estreitas ou menor proteção financeira podem enfrentar dificuldades maiores.

Passagens aéreas vão aumentar?

O risco de reajustes aumentou, mas não significa que todas as passagens subirão imediatamente ou na mesma proporção.

O preço de uma passagem aérea é definido por diversos fatores:

* procura pelo voo;

* antecedência da compra;

* número de assentos disponíveis;

* concorrência na rota;

* câmbio;

* impostos e tarifas aeroportuárias;

* custo operacional;

* preço do combustível;

* estratégia comercial da companhia.

Em rotas com forte concorrência, as empresas podem absorver parte da alta por algum tempo para evitar perder passageiros. Já nos mercados com poucas opções de voo, o repasse tende a ser mais rápido.

A Reuters informou anteriormente que várias companhias já estavam elevando tarifas, revendo previsões e reduzindo operações depois que o preço do combustível de aviação saltou para a faixa entre US$ 150 e US$ 200 por barril em determinados momentos da crise. 

O cenário mais provável é de reajustes graduais, redução de ofertas promocionais e maior diferença de preços entre períodos de baixa e alta procura.

Voos internacionais podem sentir mais o impacto

Os voos de longa distância consomem grandes volumes de combustível. Por isso, rotas internacionais podem ficar mais expostas a períodos prolongados de petróleo caro.

Uma viagem entre Brasil e Estados Unidos, por exemplo, envolve aeronaves de grande porte, longas horas de voo e despesas em dólar. Caso a alta do petróleo seja acompanhada pela valorização da moeda norte-americana, o impacto para o passageiro brasileiro pode ser ainda maior.

O efeito pode aparecer em:

* passagens mais caras;

* sobretaxa de combustível;

* redução de frequências;

* menos promoções;

* alterações em rotas com conexão;

* aumento do preço de pacotes turísticos.

Quem planeja uma viagem para Orlando, Miami, Fort Lauderdale ou outros destinos internacionais deve acompanhar não apenas a tarifa, mas também as regras de alteração, bagagem e cancelamento.

Viagem para Orlando pode ficar mais cara?

Orlando está entre os destinos internacionais mais procurados pelos brasileiros. A cidade recebe passageiros em voos diretos e conexões operadas por companhias brasileiras e estrangeiras.

Caso a pressão sobre o combustível continue, as passagens para Orlando poderão sofrer reajustes, especialmente em datas de maior movimento, como férias escolares, Natal, Réveillon e feriados.

Isso não significa que seja necessário comprar qualquer tarifa imediatamente. O ideal é acompanhar os preços, criar alertas e comparar diferentes aeroportos.

Além do Aeroporto Internacional de Orlando, dependendo do roteiro, o viajante pode pesquisar chegadas por Miami, Fort Lauderdale ou Tampa. Entretanto, é necessário incluir no cálculo os custos de aluguel de carro, pedágios, combustível e tempo de deslocamento.

Para quem deseja visitar os parques de Orlando, comprar a passagem com antecedência pode ajudar a proteger o orçamento, sobretudo quando a viagem coincide com períodos de alta demanda.

Companhias brasileiras também podem ser afetadas

Embora a reação inicial tenha sido observada principalmente entre empresas europeias, o aumento do petróleo possui alcance global.

Companhias brasileiras compram combustível de aviação com preços relacionados ao mercado internacional e também estão expostas à variação do dólar.

Assim, uma combinação de petróleo caro e câmbio desfavorável pode elevar os custos de Azul, Gol, Latam e de outras empresas que operam voos no Brasil.

O nível de impacto dependerá de fatores como:

* contratos de proteção;

* eficiência da frota;

* participação de voos domésticos e internacionais;

* capacidade de reajustar tarifas;

* concorrência;

* comportamento da demanda.

Nas rotas internacionais, as empresas ainda precisam considerar custos aeroportuários no exterior e despesas denominadas em dólar.

Empresas podem reduzir voos e retirar aeronaves menos eficientes

Quando o combustível permanece caro por um período prolongado, as companhias reavaliam sua malha.

Rotas com baixa ocupação ou menor rentabilidade podem ser reduzidas ou suspensas. Aviões mais antigos e menos eficientes também tendem a ser utilizados com menor frequência.

As empresas podem concentrar operações em aeronaves de nova geração, capazes de consumir menos combustível por passageiro.

A alta do petróleo também acelera investimentos em eficiência operacional, planejamento de rotas, redução de peso a bordo e otimização do uso das aeronaves.

Entretanto, essas medidas possuem efeito limitado diante de uma escalada abrupta dos preços.

Conflito também afeta rotas e espaço aéreo

Além do combustível, companhias aéreas enfrentam custos relacionados a desvios de rota, fechamento de espaços aéreos e cancelamentos.

Quando uma região é considerada insegura, os voos precisam contorná-la, aumentando o tempo de viagem e o consumo de combustível.

As alterações também podem provocar:

* atrasos;

* necessidade de tripulações adicionais;

* reprogramação de conexões;

* gastos com hospedagem de passageiros;

* cancelamentos;

* aumento dos seguros.

Empresas com forte presença no Oriente Médio, na Europa e na Ásia ficam especialmente expostas.

Mesmo rotas que não passam diretamente pela área de conflito podem sofrer efeitos indiretos, devido ao aumento global dos custos.

Alta do petróleo pode elevar a inflação

O impacto do petróleo vai além da aviação.

Combustíveis mais caros aumentam o custo do transporte rodoviário, marítimo e aéreo. Isso pode encarecer alimentos, mercadorias, entregas e serviços.

Se a inflação voltar a acelerar, bancos centrais poderão manter juros elevados por mais tempo. Esse cenário reduziria o poder de compra das famílias e poderia afetar a procura por viagens.

Para o turismo, a combinação de passagens mais caras, hospedagem elevada e menor renda disponível representa um risco importante.

O que o viajante deve fazer?

Quem possui uma viagem planejada não precisa entrar em pânico. A cotação do petróleo muda diariamente e pode recuar rapidamente caso exista um acordo diplomático ou normalização das rotas marítimas.

Entretanto, alguns cuidados ajudam a reduzir riscos:

Acompanhe os preços

Use alertas de passagens e compare os valores durante alguns dias.

Evite analisar apenas a tarifa básica

Inclua bagagem, marcação de assento, taxas e conexões no custo total.

Pesquise datas alternativas

Viajar um ou dois dias antes ou depois pode representar uma diferença relevante.

Considere a compra antecipada

Em períodos de alta demanda, deixar a emissão para a última hora pode aumentar a exposição aos reajustes.

Verifique as regras do bilhete

Tarifas extremamente baratas podem possuir restrições severas para mudanças e cancelamentos.

Proteja o orçamento da viagem

Além da passagem, considere os efeitos do câmbio sobre hotel, alimentação, ingressos e compras.

O que pode acontecer nas próximas semanas?

O comportamento das tarifas dependerá principalmente de três fatores:

1. duração do conflito;

2. funcionamento do Estreito de Ormuz e de outras rotas marítimas;

3. manutenção do petróleo próximo ou acima de US$ 100.

Caso exista uma trégua e o transporte de petróleo continue funcionando, os preços podem recuar. Isso reduziria parte da pressão sobre as companhias.

Por outro lado, um bloqueio prolongado, novos ataques ou redução significativa da oferta poderão levar o petróleo a patamares ainda mais elevados.

Analistas citados pela Reuters estimam que interrupções prolongadas poderiam levar o Brent a aproximadamente US$ 114 por barril. 

Setor aéreo entra em novo período de incerteza

A aviação mundial iniciou 2026 esperando crescimento da demanda e recuperação das margens. A escalada no Oriente Médio modificou rapidamente esse cenário.

Com o combustível ocupando mais de 30% dos custos operacionais, as companhias possuem pouca margem para absorver uma alta prolongada sem revisar tarifas, capacidade e investimentos.

A queda das ações da Ryanair, Wizz Air e de outros grupos europeus mostra que o mercado já considera um risco real de redução dos lucros.

Para o passageiro, o principal efeito poderá aparecer na forma de passagens mais caras, menos promoções e maior volatilidade dos preços.

O petróleo já avançou além dos US$ 90 mencionados no início da semana e chegou a ultrapassar US$ 100. A evolução do conflito e a segurança das rotas marítimas serão decisivas para determinar se o movimento será temporário ou se marcará um novo ciclo de aumento das tarifas aéreas.

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